324. A fome ainda é um problema?
A fome é um grave problema. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), cerca de 795 milhões de pessoas sofriam de subnutrição em 2015. A maioria dessas pessoas vive em países em desenvolvimento, principalmente na Ásia e em África. Nesses países, é frequentemente nas zonas rurais que a população é mais afetada pela fome. (L&F, 6, 9)

325. Qual é a diferença entre fome e subnutrição?
Fome significa uma ingestão calórica insuficiente. Subnutrição refere-se a uma dieta desequilibrada; por exemplo, sem vitaminas e minerais (com graves repercussões na saúde e no desenvolvimento intelectual) ou com um consumo de quantidades excessivas de hidratos de carbono(que é um fator de risco da diabetes e da obesidade). A subnutrição atinge mais de dois mil milhões de pessoas no mundo. Devido à pobreza, a maioria dessas pessoas não tem acesso a uma dieta equilibrada e variada, enquanto outras – apesar de abastadas – não são educadas relativamente a estas questões. A proteção contra a subnutrição é crucial nos primeiros anos de vida, pois os efeitos negativos podem ser permanentes.(L&F, 7-8)

326. Quais são as fontes de desperdício de alimentos?
Uma parte considerável dos alimentos produzidos fica imprópria para consumo pouco tempo após as colheitas, uma vez que muitas zonas não conseguem preservá-los ou colocá-los no mercado. Falamos, nestes casos, de «perdas pós-colheita», mais do que de desperdício. Exemplos de desperdício de alimentos incluem o enorme volume de peixe deitado fora pelos barcos porque apenas uma determinada parte é usada, os desperdícios nas várias fases de processamento e distribuição, e os alimentos não consumidos e deitados fora pelos consumidores. Há uma diferença considerável no desperdício de alimentos nos países pobres e nos países ricos (onde as pessoas deitam fora, todos os anos, o seu próprio peso em alimentos). (L&F, 56)

327. Quais são algumas das questões que afetam a produção de alimentos nos dias de hoje?
Sabemos cada vez mais «o que» fazer: desenvolvemos sistemas de irrigação e técnicas de conservação de alimentos, e compreendemos os passos necessários para o desenvolvimento de pequenas empresas agrícolas e os perigos de certas práticas agrícolas. A situação, porém, continua a ser problemática, como pode ver-se no número de pessoas a quem falta comida; no número de comunidades que já sofriam de fome e que agora sofrem de subnutrição devido à disseminação de maus hábitos alimentares; na pobreza das regiões onde os alimentos são produzidos; na especialização generalizada e na concentração da produção de alimentos a nível mundial; e na lentidão dos processos de acesso aos títulos de propriedade de terras em comunidades rurais e indígenas. Estes problemas não são novos. Parece que a situação se mantém por «falta de vontade». (L&F, 13-14, 16-25)

328. Quais são as principais abordagens à produção de alimentos?
Simplificando, há duas abordagens contrastantes: por um lado, há uma produção intensiva e extensiva, altamente mecanizada e baseada em investigação sofisticada (química, genética, biotecnológica, etc.). Por outro lado, há uma produção ao nível local ou familiar, que valoriza a biodiversidade e as espécies locais naturais («agroecologia» e «agricultura familiar» são termos emblemáticos desta abordagem). É necessário prosseguir sem uma mentalidade ideológica fechada, avaliar continuamente as várias iniciativas e incentivar estas iniciativas a contribuírem
melhor para o desenvolvimento humano, o meio ambiente, a qualidade dos alimentos, uma economia inclusiva e uma distribuição justa dos lucros.

329. O que é que as nações podem fazer relativamente à fome e aos alimentos em geral?
A nível nacional, cada país deve adotar políticas adequadas para ordenar a economia, para que cada pessoa tenha a oportunidade de trabalhar e, consequentemente, conseguir comida, bem como de usar os seus próprios recursos naturais de forma sustentável. Tanbém são necessários políticas que apoiem os produtores de alimentos, com formação adequada e acesso aos mercados, crédito e tecnologia. A preocupação com a alimentação e a nutrição é também um dever dos Governos. Isso inclui a formação de quem escolhe e prepara os alimentos, e também a responsabilização dos produtores de alimentos (para que mantenham produtos com elevada qualidade e garantam condições de trabalho dignas em todos os níveis da cadeia de abastecimento) e dos que trabalham em publicidade (para que não promovam alimentos ou hábitos alimentares que possam prejudicar a saúde das pessoas). Estas políticas, naturalmente, variam de país para país, dependendo do
nível de desenvolvimento e do contexto agrícola, climático e cultural. (L&F, 14, 116-118, 121-122, 129-140)

330. E a nível internacional?
As iniciativas a nível internacional são essenciais para a coordenação. O Papa Francisco escreveu: «O problema é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessidade de construir lideranças que tracem caminhos, procurando dar resposta às necessidades das gerações atuais, todos incluídos, sem prejudicar as gerações futuras […]. Preocupa a fraqueza da reação política internacional» (LS, 53-54). É mais necessária do que nunca uma ação internacional para equilibrar as políticas comerciais, em particular para permitir que os países menos desenvolvidos reforcem os seus setores agrícolas, para regular a pesca em alto mar, para que todos possam beneficiar, em vez de alguns poucos Estados com frotas adequadas. É importante lembrar que a ação a nível internacional deve ser orientada pelo princípio da subsidiariedade, prestando auxílioa cada país de acordo com as necessidades, sem os substituir desnecessariamente no que está ao alcance da sua própria iniciativa. (LS, 53-59; L&F, 41, 75, 128)

331. Qual é a melhor estratégia a longo prazo contra a fome?
Devemos permanecer vigilantes face ao «problema da fome», consultando vários indicadores, tal como disponibilidade local de alimentos, preços aos níveis local e mundial, doenças e desastres naturais que possam afetar a produção específica de uma região ou cultura, mudanças nas preferências ou necessidades dos clientes, e práticas irregulares de alguns intervenientes no mercado, especialmente no que se refere à especulação. Devemos também antecipar e reagir a qualquer declínio preocupante dos fatores ambientais que afetam a produção de alimentos, tais como a biodiversidade, a fertilidade dos solos, as reservas de água, as condições climáticas e os recursos pesqueiros nos oceanos. Ao mesmo tempo, a vigilância desses indicadores só dará frutos se abordarmos também o «grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração» (LS, 202). Esta é a melhor estratégia de longo prazo. (LS, 202-221; L&F, 121, 124-127)

332. O que é que os cristãos podem fazer individualmente para combater a fome?
A nível pessoal, é preciso ter cuidado para não desperdiçar comida e para comprar, tanto quanto possível, bens alimentares que sejam produzidos respeitando o meio ambiente e que permitam aos trabalhadores o salário justo e o respeito merecido. O reconhecimento de que o alimento não é apenas o fruto do trabalho do Homem, mas também um dom da Providência Divina, ajudar-nos-á a ter mais cuidado para evitar o desperdício. De uma forma mais ampla, os cristãos podem encontrar, na sua fé e na sua espiritualidade, «motivações altas para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis» (LS, 64).
A nível social, as várias organizações da sociedade civil e as pessoas individualmente consideradas devem monitorizar as ações das suas autoridades governamentais, para que as leis e políticas sirvam realmente o bem comum. Por exemplo, as autoridades devem evitar acordos de intercâmbio que piorem a situação dos países agrícolas pobres, e não devem promover a utilização de alimentos como biocombustíveis se isso afetar a segurança alimentar. (LS, 63-64; L&F, 66-68, 85-91)

333. O que é que a Igreja faz em relação à fome?
A Igreja manifestou sempre uma preocupação particular pelos pobres, pelos famintos e pelos produtores de géneros alimentícios. As dioceses, ordens religiosas e associações como a Cáritas estão na linha da frente do combate à fome e do desenvolvimento das comunidadesrurais através de formação, assistência jurídica e fornecimento de materiais a crédito. A nível internacional, a Santa Sé e os Papas pediam repetidamente, e continuam a pedir, aos Estados que se esforcem por resolver de forma responsável o flagelo da fome. Denunciaram com particular insistência o «paradoxo da abundância», referindo-se aos países com recursos naturais abundantes que exibem uma pobreza incrível. Também condenaram o desperdício de alimentos e o uso de alimentos como arma contra pessoas inocentes. Além disso, várias associações católicas estabelecem diálogos com o setor privado, encorajando-o a melhorar continuamente o seu desempenho em termos ecológicos, fiscais e sociais. (L&F, 146-150)

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